domingo, 25 de janeiro de 2015

O PLANEJAMENTO DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO

Com tantas matérias saindo sobre o setor elétrico nos últimos dias e meses, que evidenciam o tempo todo o nosso atual ministro de minas e energia, Eduardo Braga, e relembram detalhes passados do Lobão, decidi falar sobre o assunto, com o intuito de esclarecer um pouco a estrutura do setor. Então vou dividir esse texto em partes, para que fique um pouco mais didático. Apesar de longo, gostaria que as pessoas lessem antes de comentar, ou simplesmente o ignorassem. Qualquer referência sobre o assunto pode ser encontrada no final do texto, pra quem pretende conhecer mais, é claro.

A Eletricidade é o Novo Petróleo: Economia
A situação do mundo pós-revolução industrial era bastante complicada em vários aspectos. Não era de costume se preocupar com o trabalhador, então, grandes cargas de serviço eram despejadas na menor quantidade possível de funcionários e pelo maior tempo de exposição de que estes eram capazes de suportar (às vezes não suportavam). Não se falava em segurança e nem em meio ambiente. Vivíamos uma época de grandes chefões alheios ao meio social, que se preocupavam apenas com seu dinheiro. Porém, até seu pensamento egoísta estava errado. O meio ambiente e o trabalhador, que eram massacrados e explorados até o fim, são e sempre foram de suma importância para a manutenção do sistema capitalista.
O capitalismo, ao contrário do que muitos pensam, procura um mundo de ricos, e não um mundo de pobres. As diferenças sociais existem e fazem parte do capitalismo, sim, de fato, principalmente na organização tosca de países subdesenvolvidos, como o país em que vivemos. Mas, procure grandes países capitalistas e veja que as diferenças sociais existem, mas nunca tão evidentes e matematicamente óbvias como no Brasil e outros países subdesenvolvidos. E não me venham com o papo de "os EUA são ricos porque fazem outros países serem pobres no lugar da sua população". Essa não cola, porque a estrutura da economia mundial não funciona dessa maneira. A conversa é mais ou menos a seguinte: "eu compro do teu país, sua organização fica por tua conta. Se você não estabelece legislações de proteção ao trabalhador, paciência. Colocarei a minha fábrica onde for mais barato". Então, o capitalista não é um anjo enviado dos céus ou criado pela sociedade, mas também está longe de ser um porco. Não são todas as indústrias de base multinacionais que se instalam em países onde a população pode ser explorada. Um exemplo? O Brasil. Temos leis trabalhistas sólidas. Ainda em construção, claro, e o governo decide bancar através de subsídios o menor custo para a instalação das empresas.
A explicação mais profunda destes temas vai bastante além, mas podemos adiantar que o governo dá subsídios porque a empresa passa a produzir e, consequentemente contratar trabalhadores, que consomem produtos, sustentando as empresas, que dão salários e etc. Essa organização leva a um ciclo econômico saudável e, dessa forma, com salários e consumos, impostos são pagos, engordando os caixas do governo e permitindo, portanto, que várias outras medidas sejam executadas. Portanto, um bom governo é aquele que sabe gerir as finanças e aplicá-las aonde estiver a maior necessidade no momento, sem comprometer o futuro do seu povo ou a estabilidade da sua economia, pois quando o futuro de uma empresa é incerto, ela simplesmente muda de lugar, caso esta seja a alternativa menos custosa. Voltemos agora ao cenário após a revolução industrial, momento em que as empresas não se preocupavam com nada, ainda.
No mundo, os grandes combustíveis das indústrias até poucos anos atrás, literalmente falando, eram carvão e petróleo. Tanto por processos diretamente ligados ao aquecimento quando pela facilidade de se gerar energia elétrica a partir da queima de combustíveis fósseis. Essa era a tecnologia de que tínhamos disponibilidade e que podia ser instalada em quase qualquer lugar. Porém, com o desenvolvimento de novas tecnologias, os sistemas elétricos em muitos países passaram a ser interligados, assim como no Brasil (claro que em datas diferentes, mas isso não vem ao caso agora). Hoje, nosso país tem estruturado o chamado SIN, Sistema Interligado Nacional. Desde o início nos desenvolvimentos do setor elétrico, muitas indústrias passaram a comprar sua energia do sistema, e isso acontecia no mundo todo. Por vários motivos, principalmente os financeiros (contratação de pessoal e estruturação de setores que não valiam à pena pela quantidade de consumo), algumas empresas não montaram sua própria geração. No Brasil, ainda existem muitas indústrias, até de grande porte, que não geram sua própria energia, assim como em muitos outros países.
Dado que o sistema é robusto e confiável, a energia passa a ser comprada diretamente das geradoras, transmissoras e distribuidoras. Hoje, portanto, o que movimenta as caldeiras, esteiras, máquinas e quase tudo que se vê dentro de uma fábrica é a energia elétrica fornecida diretamente pela rede local. Quanto mais desenvolvida tecnologicamente uma instalação de grande porte, maior o consumo para produção e menores os gastos. Ou seja, a energia elétrica passou a ser objeto de investimento, participando direta e ativamente dos custos dos produtos. A energia se tornou o novo petróleo. Hoje, até o petróleo é destinado em gigantesca parte para a geração de energia elétrica. Sem eletricidade, o mundo simplesmente não se move. Não existe economia, produção, lazer, conforto ou qualidade de vida, infelizmente. Ou felizmente? De qualquer forma, essa filosofia não faz parte do assunto ainda.

Tarifa (2012 - 2014)
As primeiras matérias que passaram a evidenciar o setor elétrico, ainda em 2014, veiculavam o aumento da tarifa em torno de 20% que ocorreria no ano. Esse aumento foi autorizado devido à crise financeira que havia se instalado nas distribuidoras de todo o país. Mas muitas críticas foram feitas sem a real compreensão do problema.
O que aconteceu, na verdade, é de simples entendimento. Em 2012 foi anunciada uma redução de 16% nas contas de energia elétrica para o consumidor residencial e de 28% para a industria. Medida que, segundo a justificativa da presidenta, beneficiaria o setor produtivo, impactando positivamente nas exportações. Verdade, de fato, nossa economia precisava de uma estilingada, e nada como a redução na tarifa de energia das indústrias para auxiliar na redução dos custos de produção. Apesar de se dizer que na época tudo andava às mil maravilhas, não era verdade, portanto a presidenta tomou uma decisão corretíssima, com exceção de um detalhe: a redução na tarifa de energia do consumidor residencial.
Essa minha posição, por mais que pareça anti-popular, como muitos adoram classificar, na verdade é muito mais popular do que a medida tomada pelo governo. Podemos entender isso com um raciocínio matemático básico, mas sem a necessidade de cálculos.

A Inflação e o Setor Elétrico
Se o custo de energia elétrica para uma empresa qualquer sobe, o preço pago pelo consumidor final sobe naturalmente e, quanto maior a necessidade da energia para essa produção, ou seja, quanto mais energia é consumida por produto, maior é o impacto no preço final. Porém, enquanto a energia é sempre um investimento numa empresa que trabalha diretamente com produção, nas nossas casas o consumo muitas vezes é desnecessário. Sem contar que pode ser sempre (ou quase sempre) considerado um gasto, e não um investimento.
No final, o índice de inflação passa a ser afetado, tanto pela alta nos preços dos produtos quanto pela alta nas contas de energia. Acontece que o gasto médio de uma residência brasileira pode ser sempre reduzido, visto que não é prática comum no nosso país o consumo consciente. Temos a mania de deixarmos nossos aparelhos eletrônicos constantemente ligados às tomadas, como carregadores de computadores e celulares, mesmo quando não estão em uso; mantemos nossas luzes ligadas quando não estamos precisando usá-las; temos casas fechadas e escuras que nos obrigam a acender as lâmpadas de manhã; utilizamos máquinas de lavar roupas com frequência, geralmente lavando poucas peças por vez; esquecemos ventiladores ligados; utilizamos o famoso ar condicionado muitas vezes em temperaturas mais baixas do que o necessário e, para reduzir o frio, apelamos para o cobertor; deixamos televisões e rádios ligados enquanto estamos fazendo outras coisas e, muitas vezes, os dois ao mesmo tempo. Enfim, uma série de atitudes nossas podem mudar com o objetivo de reduzirmos o impacto contábil e ambiental que o país sofre.
Isso significa que o povo pode, quase sempre, reduzir o consumo a fim de diminuir o preço da conta no fim do mês, sem a necessidade de uma redução da tarifa pela caneta do governo. Dessa maneira sobrariam recursos financeiros para auxiliarmos no crescimento econômico e industrial do país, como reduzir a tarifa para garantir a competitividade desses mercados. Além disso, as pessoas de baixa renda são asseguradas com programas sociais estabelecidos nos contratos de concessão há alguns anos, pagando tarifas mais baratas do que os consumidores de renda média e alta, desde que se mantenham abaixo de um valor X de consumo. Há também outros programas que afetam positiva e diretamente o povo de baixa renda, que são bancados pelas distribuidoras, como a troca de geladeiras antigas por novas mais eficientes. Essas medidas garantem que as residências poderão se manter nos programas sociais e afetam diretamente o índice de perdas das distribuidoras, o que é, na verdade, uma economia de energia para o Sistema Interligado Nacional.
Com tarifa reduzida para as indústrias, porém não reduzidas para o povo, mesmo que o índice da inflação não apontasse uma redução nos nossos gastos com energia, teríamos a opção de reduzi-los, salvo raras exceções. E, sem o impacto do aumento de custos nas indústrias, balanceado pela redução da tarifa de energia, os preços de vários setores não aumentariam tanto, mantendo o índice de inflação amenizado, visto que alimentação e saúde, por exemplo, não são opções. Precisamos de comida e de saúde para trabalhar e garantir nosso pão diário, é como um ciclo.
Quando, portanto, um custo de energia impacta indústrias de base, todos os preços finais sobem, como uma reação em cadeia; a alimentação por causa dos sistemas de irrigação e transporte; o transporte por causa da manutenção dos automóveis; a manutenção por causa das máquinas; as máquinas por causa da produção das peças; as peças por causa do processo de molde; o processo de molde por causa do custo do material; o material por causa dos mecanismos de separação dos minérios; os minérios por causa dos sistemas de busca, extração e transporte; e estamos num ciclo de novo.
É por causa dessa complexidade de influências que é bastante difícil controlar a inflação num país. Dessa forma, medidas emergenciais são tomadas quase que mensalmente com o intuito de controlar a saída do dinheiro do bolso do trabalhador. Mas medidas a longo prazo também devem ser pensadas e, portanto, devemos saber escolher gestores públicos preparados e capacitados, pensando no nosso futuro, e não no momento, pois erros de impacto no longo prazo são, geralmente, muito mais desestabilizadores para todos.

Racionamento e as Séries Históricas
No final do ano passado, foi impossível não falar sobre racionamento de energia elétrica. Mas muitos consideraram que o assunto era apenas uma questão eleitoreira e ignoraram o abismo que estava por vir. Chamo de abismo não apenas por sermos quase totalmente dependentes de energia elétrica, mas porque os efeitos de longo prazo estavam chegando, derivados de um planejamento desleixado e um sistema público já saturado de funcionários incompetentes e corruptos, o que me faz agradecer todos os dias por ainda existirem alguns trabalhadores sérios nos governos, que reacendem a minha esperança de um futuro mais próspero.
Enfim, o racionamento chegou, mas não chegou de surpresa. Não foi a falta de chuva que nos trouxe diretamente a complicação de um racionamento. Claro que a chuva importa. E importa muito. Mas o clima, com todas as mudanças climáticas e toda a desgraça que estamos vivendo, não nos engana tanto. A seca estava prevista há muito tempo. Antes da construção de uma usina hidrelétrica, são feitas inúmeras pesquisas, dentre elas estudam-se o clima e o regime de chuvas da região. A ANA, Agência Nacional de Águas, disponibiliza dados chamados séries históricas, que são um registro de quanto chove em determinado espaço, contabilizados ano por ano, mês por mês e dia por dia, e essas séries não são aleatórias. A cada ciclo de aproximadamente quarenta anos, o nosso país passa por um regime de seca, que dura de 3 a 4 anos, e sabíamos que estávamos entrando nesse período, que se iniciou por volta de 2013. Notem, portanto, que entramos no período de seca junto com a redução da tarifa de energia, o que não é bom nem para as empresas do setor, nem para as indústrias e nem para o povo, e vou explicar o porquê.

Racionamento em 2001
No ano de 2001, com 30% em média dos reservatórios de água do país, o então presidente, Fernando Henrique Cardoso, anunciou um período de racionamento de energia. Não só isso, já haviam muitas campanhas sobre o uso consciente de água e energia elétrica realizadas por alguns governos estaduais e pelo governo federal. Frente à necessidade de um racionamento e a obrigatoriedade de não permitir que o nosso país perdesse a tão duramente conquistada estabilidade econômica, o governo decidiu estimular a construção de usinas termelétricas. Porém, àquela época, mais de 90% da nossa energia era proveniente de grandes hidrelétricas, caracterizando um grande risco até ao abastecimento de água caso os reservatórios baixassem muito.
A partir de 1997, iniciou-se o processo de construção de usinas de menor porte, com o intuito de distribuir um pouco mais a geração pela área física do país, reduzindo o impacto climático das usinas geradoras, um modelo que é seguido em grande parte dos países onde há alto consumo de energia. A medida, obviamente, surgiu para consertar uma falha do governo, que foi a retirada do planejamento energético do setor público, acreditando que, por demanda natural, surgiriam empresários a fim de construir novas linhas e novas usinas, se responsabilizando pelo investimento. Para tal foram criados dois órgãos públicos, o CCPE, Comitê Coordenador da Expansão do Sistema Elétrico, e o CNPE, Conselho Nacional de Política Energética. O primeiro seria responsável para regular e coordenar o planejamento, porém não mais investir, e o segundo deveria assessorar o presidente na formulação de diretrizes relacionadas ao setor. Com a dificuldade de atrair investidores para o setor, passamos por problemas no planejamento que nos renderam uma crise energética, e tivemos que racionar.
Então racionamos, evitamos maiores problemas e corrigimos erros do passado. Infelizmente, 4 anos de luta contra a crise não resultaram no ideal. Até as contas de energia dos brasileiros sofreram alterações. O alto consumo seria punido com uma multa de 50% do valor do excedente ou até mais, a depender da característica daquela carga. Passado esse problema e iniciado o processo de expansão da geração e da transmissão, não deveríamos mais passar por problemas de abastecimento de energia. Mas, infelizmente, outros fatores nos trazem de volta o risco de racionamento.

Racionamento em 2015
Não adiantou o governo negar a iminência do racionamento. Estamos vivendo o racionamento desde o primeiro corte de carga determinado pelo ONS, ainda no começo deste ano. Há vários motivos que podem levar a um racionamento, como falta de linhas de transmissão para transportar a energia demandada ou falta de geração da energia necessária. O Brasil passa pelos dois problemas. Estávamos com as nossas hidrelétricas e nossas térmicas a todo vapor. Agora já estamos comprando energia da Argentina. Nossa geração não é suficiente para o atual consumo, mesmo com a retração do setor industrial nos últimos meses.
Não bastasse todo o problema de geração, a falta de planejamento do setor elétrico nos últimos anos fez com que todas as linhas que interligam a região Norte às regiões Sudeste e Centro-Oeste fossem utilizadas praticamente no limite o tempo todo nos últimos dois anos. A utilização de componentes do setor elétrico próximas ao limite atrapalham a realização de grande parte das já programadas manutenções preventivas, deixando o sistema mais vulnerável a falhas, como está acontecendo conosco. Se o Brasil tivesse crescido de como idealizado, a necessidade de racionamento teria chegado antes.
Essa situação poderia, de fato, ter sido evitada, já que temos como prever os tempos de seca. O governo, como vimos, sabia, há muito mais de dez anos, do período de seca que estava por vir. Nada foi feito, linhas de transmissão foram atrasadas e obras de pequenas centrais hidrelétricas também. O plano de investimento em gerações de pequeno e médio porte, iniciado antes do racionamento de 2001, foi quase que completamente desprezado. Nenhum aumento foi dado nas tarifas de energia, pois é considerado medida impopular. Na verdade, seguimos o padrão populista e esquecemos do futuro do povo, que hoje tem que pagar muito mais caro por uma postura errada do passado.
Mesmo tardio, o racionamento está impactando o crescimento econômico. Como a energia hoje é o grande bem de consumo de uma grande empresa, principalmente se esta for do setor industrial, seus planos não prevêem grandes investimentos no país. Este foi um dos fatores que nos fez passar por uma recessão no final do ano passado, que pode até se repetir este ano, visto que não há outra medida a ser tomada no setor. Se, portanto, o governo não conseguir subsidiar empresas e grandes indústrias de outra forma, viveremos tempos complicados, principalmente para aqueles que trabalham nos setores produtivos do país.

Crise Financeira do Setor Elétrico X Inflação e Crescimento Econômico
Estamos em crise no setor elétrico desde 2013, quando houve a redução da tarifa para todas as modalidades tarifárias do país. Como estávamos entrando num período de seca, viveríamos dias de extremo calor e pouca água, tanto nas capitais como nos mananciais de todo o Brasil. Portanto, passamos por problemas como o alto consumo de energia elétrica por conta do calor, pouca água nos reservatórios devido à seca e acionamento de outras formas de geração, como termelétricas. Aparentemente, está tudo bem, apenas estamos consumindo uma energia de outra fonte geradora. Mas, infelizmente, nem tudo é tão simples quanto parece.
O custo de geração das termelétricas é absurdamente alto, principalmente o das que usam diesel como combustível. Assim, o preço da energia no mercado livre, como mostra a evolução do PLD, retirada do site da ANEEL, subiu de algo em torno de R$100/MWh no início/meio de 2013 para pouco mais de R$800/MWh. Um preço quase 8 vezes maior contido pelo teto estabelecido, e se manteve num patamar alto por um bom tempo, sendo jogado para baixo no início de 2014 e subindo logo em seguida. Nota-se também, do mesmo gráfico, que o teto do PLD já vinha subindo, dado às formas de geração que estávamos sendo obrigados a utilizar, provando como o governo e o planejamento do setor tinham plena consciência do que se passava no país. Vale salientar também que a análise deste texto feita sobre o PLD já se inicia em tempos de crise. Se compararmos a alavancada com a média anterior à crise, até a metade de 2012, o aumento ultrapassa bastante os 1000% (mil por cento, ou seja, dez vezes).

Fonte: http://www.aneel.gov.br
Esse aumento no mercado de energia leva as distribuidoras de energia a pagarem o preço estabelecido. Mas não nos afeta instantaneamente. Nós, consumidores finais, pagamos o preço definido na revisão tarifária periódica realizada pela ANEEL, ou seja, estávamos pagando 16% a menos do que pagávamos antes, mas por uma energia que custava mais de 800% a mais do que custava antes. As distribuidoras quebraram financeiramente. Dado isso, o governo teve de bancá-las para que não houvesse reajuste nas tarifas e, mesmo meio a inúmeros subsídios, ainda houve aumento de 20% até 35% nas contas dos consumidores finais, a depender do estado em que moravam. Diferença que é definida pela condição financeira da distribuidora local. Sem contar o setor industrial, que teve de pagar até 48% a mais.
Mas esse reajuste ainda não foi suficiente, e atualmente um empréstimo está em processo de discussão. O aumento pago pelas indústrias, que representam o maior percentual das contas, refletiu num aumento de apenas 6,56% relativo a 2012, quando houve então a redução, o que não cobre os custos de mais de 800% já relatados aqui.
O aumento do PLD traz inúmeras consequências negativas ao país. Empresas de grande porte, como as eletrointensivas, que correspondem à maior parcela da carga do sistema, costumam comprar energia por contrato no mercado, não sendo atrelados a um preço fixo, podendo portanto alterar seus contratos e mudar seu fornecedor de acordo com a demanda e outros fatores, mas sempre de acordo com a regulamentação da ANEEL. Com o PLD alto, essas empresas passam a ter custo de produção muito elevado, impactando fortemente na economia do país e no bolso dos brasileiros. Porém, devido ao altíssimo consumo, seus contratos costumam ser baratos. Mas como estamos em tempos de crise, o governo não pôde mais autorizar os contratos com preço baixo para muitas delas.
As eletrointensivas do Nordeste, como visto recentemente, deverão rediscutir seus contratos de R$110 por MWh. Isso impactará fortemente nos custos de produção das empresas Gerdau, Vale, Braskem e Dow. Caso entrem para a compra no mercado livre, sem receber nenhum benefício no governo, pagarão o PLD atual, que está nos R$388/MWh, representando um aumento de aproximadamente 250% nos custos com energia elétrica. Com os ramos da mineração, da química e da siderurgia afetados, muitos outros setores serão negativamente impactados, dados os custos que também subirão. Portanto, hoje, reunimos alta de custos tanto na energia como nos bens básicos para as indústrias, o que será repassado para o consumidor, naturalmente. Podemos contar com uma elevação do índice da inflação para os próximos anos.
Para quem não sabe, as eletrointensivas afetadas fornecem produtos para os setores de: construção, peças, agricultura, eletrônicos, saúde, infraestrutura, nutrição, petróleo, embalagens, energia renovável, transporte, água e outros. Logo, a reação em cadeia é inevitável. Haverá um aumento decorrente do fornecimento para as áreas citadas e ainda um custo adicional do percentual da tarifa de energia dos setores que não são eletrointensivos. Por exemplo, a Dow fornece produtos químicos para agricultores, que pagarão mais caro e repassarão seus custos para a safra. A safra sairá mais cara por causa dos produtos fornecidos e pelo aumento de tarifa de energia que acontecerá nos próximos meses. Será portanto um aumento duplo sobre um mesmo produto, e segue a reincidência até o consumidor final. Provavelmente, a comida na mesa do povo brasileiro subirá bastante em 2015.

Crise Elétrica X Crise Hídrica
Além de tudo que já foi comentado, o desleixo no planejamento energético, no caso, principalmente a redução das tarifas no início de 2013, ainda fizeram com que o país passasse por uma seca maior do que deveria. Houve um crescimento no consumo nos últimos dois anos e as hidrelétricas funcionaram praticamente a plena carga durante todo o tempo, secando ainda mais os reservatórios. Essa seca atingiu grandes populações. Apesar da veiculação sobre a crise hídrica de São Paulo, hoje, o Ceará está em estado de alerta por causa da seca e o governo de Minas Gerais está tendo que pensar bastante as medidas futuras. No Nordeste, durante o final do ano passado, os reservatórios estiveram muito mais baixos do que os do Sudeste. Enquanto o povo nordestino sofria com a seca, a corrida eleitoral virou os olhos de todos para o Sudeste, deixando muitos sertanejos do interior de lado.
Outra medida essencial para a boa manutenção das chuvas num país é o controle do desmatamento. Como mostra o recente estudo de Antonio Nobre, pesquisador do INPE, o desmatamento na Amazônia influencia diretamente as chuvas no corredor Norte-Sudeste. É transportada pelos ares, em forma de nuvens, uma quantidade de água comparável à vazão do rio amazonas, água que cai em forma de chuvas no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil. Estas estruturas são chamadas de rios voadores e se formam a partir da transpiração das árvores. Para a tristeza dos brasileiros, Nobre diz que não adianta mais reduzirmos o desmatamento, temos que replantar.

Planos Futuros, Governo e o Papel do Cidadão Brasileiro
Nosso futuro é incerto. Infelizmente temos que torcer por melhoras e, quando a palavra esperança passa a rondar as reuniões de planejamento, é porque não há mais o que fazer.
A população tem criticado a presidenta pelas medidas tomadas pós-eleições. Mas não vou entrar no mérito de promessas de campanha, pois esse não é o foco do presente texto. O caso a ser analisado é bem simples. As medidas tomadas, os vetos e tudo o mais são exatamente o que qualquer presidente seria obrigado a fazer, desde o ajuste na tabela do IR, até o veto nos contratos das eletrointensivas e o aumento dos juros. O que deve ser discutido e, claro, criticado é a absurda falta de planejamento que o país vive há quase 12 anos. O plano econômico se manteve na mudança de governos em 2003, porém a qualidade da equipe econômica era outra e medidas emergenciais não foram sempre tomadas de forma correta. Quando, portanto, a então ministra de minas e energia, Dilma Rousseff, no governo do ex-presidente Lula, se deparou com o futuro que estava por vir, não soube o que fazer. O país passaria por problemas de abastecimento e deveria haver alguém competente para pensar o futuro, alguém que estimulasse a geração distribuída, que fizesse com que pessoas de renda média e alta pagassem mais caro pela energia elétrica, que fizesse campanhas de consumo consciente. Como este ser humano não existia dentro do MME, entramos em declínio no setor elétrico.
Analisamos, até então, apenas o impacto do setor elétrico. Outras análises profundas de diversos setores podem ser feitas. Contribuo aqui apenas com o pouco que entendo. Deixo claro também que a estrutura do setor é bem mais complexa e que este é um texto para que todos possam entender o quanto uma pequena parcela influencia no todo. Evitei portanto o excesso de termos técnicos e espero ter ajudado na compreensão do problema que estamos vivendo. Estou fazendo meu papel de cidadão.
Com relação a isso, espero que todos nós utilizemos energia de maneira mais consciente, economizemos água e aprendamos a não sujar o nosso país. Essa é a diferença que podemos fazer. Devemos também estudar o máximo para compreender o funcionamento do nosso sistema político e econômico, para não cairmos mais uma vez na mão de políticos incompetentes. Desejo muita sorte a todos nós.

Referências e Links Recomendados
Site da Dow
Site da Braskem
Valor Econômico: Governo Discute com Eletrointensivas Alternativas a Contrato da Chesf
Estadão: Alta no Preço da Energia Faz Alcoa Cortar Produção
ANEEL: Sobre o PLD
Globo; Preço da Energia Para o Consumidor Vai Cair em 2013
Valor Econômico: Aneel Aprova Aumento Médio de 35,05% nas Tarifas de Energia da Copel
Revisão do ONS Sobre o Setor Elétrico
INPE: Futuro Climático da Amazônia - Antônio Nobre (para download)
BNDES: Relatórios Sobre as Privatizações