Com tantas matérias saindo
sobre o setor elétrico nos últimos dias e meses, que evidenciam o tempo todo o
nosso atual ministro de minas e energia, Eduardo Braga, e relembram detalhes
passados do Lobão, decidi falar sobre o assunto, com o intuito de esclarecer um
pouco a estrutura do setor. Então vou dividir esse texto em partes, para que fique
um pouco mais didático. Apesar de longo, gostaria que as pessoas lessem antes
de comentar, ou simplesmente o ignorassem. Qualquer referência sobre o assunto
pode ser encontrada no final do texto, pra quem pretende conhecer mais, é
claro.
A Eletricidade é o Novo Petróleo:
Economia
A situação do mundo pós-revolução
industrial era bastante complicada em vários aspectos. Não era de costume se
preocupar com o trabalhador, então, grandes cargas de serviço eram despejadas
na menor quantidade possível de funcionários e pelo maior tempo de exposição de
que estes eram capazes de suportar (às vezes não suportavam). Não se falava em
segurança e nem em meio ambiente. Vivíamos uma época de grandes chefões alheios
ao meio social, que se preocupavam apenas com seu dinheiro. Porém, até seu
pensamento egoísta estava errado. O meio ambiente e o trabalhador, que eram
massacrados e explorados até o fim, são e sempre foram de suma importância para
a manutenção do sistema capitalista.
O capitalismo, ao contrário
do que muitos pensam, procura um mundo de ricos, e não um mundo de pobres. As
diferenças sociais existem e fazem parte do capitalismo, sim, de fato,
principalmente na organização tosca de países subdesenvolvidos, como o país em
que vivemos. Mas, procure grandes países capitalistas e veja que as diferenças
sociais existem, mas nunca tão evidentes e matematicamente óbvias como no Brasil
e outros países subdesenvolvidos. E não me venham com o papo de "os EUA
são ricos porque fazem outros países serem pobres no lugar da sua
população". Essa não cola, porque a estrutura da economia mundial não
funciona dessa maneira. A conversa é mais ou menos a seguinte: "eu compro
do teu país, sua organização fica por tua conta. Se você não estabelece
legislações de proteção ao trabalhador, paciência. Colocarei a minha fábrica
onde for mais barato". Então, o capitalista não é um anjo enviado dos céus
ou criado pela sociedade, mas também está longe de ser um porco. Não são todas
as indústrias de base multinacionais que se instalam em países onde a população
pode ser explorada. Um exemplo? O Brasil. Temos leis trabalhistas sólidas.
Ainda em construção, claro, e o governo decide bancar através de subsídios o
menor custo para a instalação das empresas.
A explicação mais profunda
destes temas vai bastante além, mas podemos adiantar que o governo dá subsídios
porque a empresa passa a produzir e, consequentemente contratar trabalhadores, que
consomem produtos, sustentando as empresas, que dão salários e etc. Essa organização
leva a um ciclo econômico saudável e, dessa forma, com salários e consumos,
impostos são pagos, engordando os caixas do governo e permitindo, portanto, que
várias outras medidas sejam executadas. Portanto, um bom governo é aquele que
sabe gerir as finanças e aplicá-las aonde estiver a maior necessidade no
momento, sem comprometer o futuro do seu povo ou a estabilidade da sua
economia, pois quando o futuro de uma empresa é incerto, ela simplesmente muda
de lugar, caso esta seja a alternativa menos custosa. Voltemos agora ao cenário
após a revolução industrial, momento em que as empresas não se preocupavam com
nada, ainda.
No mundo, os grandes
combustíveis das indústrias até poucos anos atrás, literalmente falando, eram
carvão e petróleo. Tanto por processos diretamente ligados ao aquecimento quando
pela facilidade de se gerar energia elétrica a partir da queima de combustíveis
fósseis. Essa era a tecnologia de que tínhamos disponibilidade e que podia ser
instalada em quase qualquer lugar. Porém, com o desenvolvimento de novas
tecnologias, os sistemas elétricos em muitos países passaram a ser
interligados, assim como no Brasil (claro que em datas diferentes, mas isso não
vem ao caso agora). Hoje, nosso país tem estruturado o chamado SIN, Sistema
Interligado Nacional. Desde o início nos desenvolvimentos do setor elétrico,
muitas indústrias passaram a comprar sua energia do sistema, e isso acontecia no
mundo todo. Por vários motivos, principalmente os financeiros (contratação de
pessoal e estruturação de setores que não valiam à pena pela quantidade de
consumo), algumas empresas não montaram sua própria geração. No Brasil, ainda
existem muitas indústrias, até de grande porte, que não geram sua própria
energia, assim como em muitos outros países.
Dado que o sistema é robusto
e confiável, a energia passa a ser comprada diretamente das geradoras,
transmissoras e distribuidoras. Hoje, portanto, o que movimenta as caldeiras,
esteiras, máquinas e quase tudo que se vê dentro de uma fábrica é a energia
elétrica fornecida diretamente pela rede local. Quanto mais desenvolvida tecnologicamente
uma instalação de grande porte, maior o consumo para produção e menores os
gastos. Ou seja, a energia elétrica passou a ser objeto de investimento,
participando direta e ativamente dos custos dos produtos. A energia se tornou o
novo petróleo. Hoje, até o petróleo é destinado em gigantesca parte para a
geração de energia elétrica. Sem eletricidade, o mundo simplesmente não se
move. Não existe economia, produção, lazer, conforto ou qualidade de vida,
infelizmente. Ou felizmente? De qualquer forma, essa filosofia não faz parte do
assunto ainda.
Tarifa (2012 - 2014)
As primeiras matérias que
passaram a evidenciar o setor elétrico, ainda em 2014, veiculavam o aumento da
tarifa em torno de 20% que ocorreria no ano. Esse aumento foi autorizado devido
à crise financeira que havia se instalado nas distribuidoras de todo o país.
Mas muitas críticas foram feitas sem a real compreensão do problema.
O que aconteceu, na verdade,
é de simples entendimento. Em 2012 foi anunciada uma redução de 16% nas contas
de energia elétrica para o consumidor residencial e de 28% para a industria. Medida
que, segundo a justificativa da presidenta, beneficiaria o setor produtivo,
impactando positivamente nas exportações. Verdade, de fato, nossa economia
precisava de uma estilingada, e nada como a redução na tarifa de energia das
indústrias para auxiliar na redução dos custos de produção. Apesar de se dizer
que na época tudo andava às mil maravilhas, não era verdade, portanto a
presidenta tomou uma decisão corretíssima, com exceção de um detalhe: a redução
na tarifa de energia do consumidor residencial.
Essa minha posição, por mais
que pareça anti-popular, como muitos adoram classificar, na verdade é muito
mais popular do que a medida tomada pelo governo. Podemos entender isso com um
raciocínio matemático básico, mas sem a necessidade de cálculos.
A Inflação e o Setor Elétrico
Se o custo de energia elétrica
para uma empresa qualquer sobe, o preço pago pelo consumidor final sobe
naturalmente e, quanto maior a necessidade da energia para essa produção, ou
seja, quanto mais energia é consumida por produto, maior é o impacto no preço
final. Porém, enquanto a energia é sempre um investimento numa empresa que
trabalha diretamente com produção, nas nossas casas o consumo muitas vezes é desnecessário.
Sem contar que pode ser sempre (ou quase sempre) considerado um gasto, e não um
investimento.
No final, o índice de
inflação passa a ser afetado, tanto pela alta nos preços dos produtos quanto pela
alta nas contas de energia. Acontece que o gasto médio de uma residência brasileira
pode ser sempre reduzido, visto que não é prática comum no nosso país o consumo
consciente. Temos a mania de deixarmos nossos aparelhos eletrônicos
constantemente ligados às tomadas, como carregadores de computadores e
celulares, mesmo quando não estão em uso; mantemos nossas luzes ligadas quando
não estamos precisando usá-las; temos casas fechadas e escuras que nos obrigam
a acender as lâmpadas de manhã; utilizamos máquinas de lavar roupas com
frequência, geralmente lavando poucas peças por vez; esquecemos ventiladores
ligados; utilizamos o famoso ar condicionado muitas vezes em temperaturas mais
baixas do que o necessário e, para reduzir o frio, apelamos para o cobertor;
deixamos televisões e rádios ligados enquanto estamos fazendo outras coisas e,
muitas vezes, os dois ao mesmo tempo. Enfim, uma série de atitudes nossas podem
mudar com o objetivo de reduzirmos o impacto contábil e ambiental que o país
sofre.
Isso significa que o povo
pode, quase sempre, reduzir o consumo a fim de diminuir o preço da conta no fim
do mês, sem a necessidade de uma redução da tarifa pela caneta do governo.
Dessa maneira sobrariam recursos financeiros para auxiliarmos no crescimento econômico
e industrial do país, como reduzir a tarifa para garantir a competitividade
desses mercados. Além disso, as pessoas de baixa renda são asseguradas com
programas sociais estabelecidos nos contratos de concessão há alguns anos,
pagando tarifas mais baratas do que os consumidores de renda média e alta, desde
que se mantenham abaixo de um valor X de consumo. Há também outros programas
que afetam positiva e diretamente o povo de baixa renda, que são bancados pelas
distribuidoras, como a troca de geladeiras antigas por novas mais eficientes.
Essas medidas garantem que as residências poderão se manter nos programas
sociais e afetam diretamente o índice de perdas das distribuidoras, o que é, na
verdade, uma economia de energia para o Sistema Interligado Nacional.
Com tarifa reduzida para as
indústrias, porém não reduzidas para o povo, mesmo que o índice da inflação não
apontasse uma redução nos nossos gastos com energia, teríamos a opção de reduzi-los,
salvo raras exceções. E, sem o impacto do aumento de custos nas indústrias,
balanceado pela redução da tarifa de energia, os preços de vários setores não
aumentariam tanto, mantendo o índice de inflação amenizado, visto que
alimentação e saúde, por exemplo, não são opções. Precisamos de comida e de
saúde para trabalhar e garantir nosso pão diário, é como um ciclo.
Quando, portanto, um custo
de energia impacta indústrias de base, todos os preços finais sobem, como uma
reação em cadeia; a alimentação por causa dos sistemas de irrigação e
transporte; o transporte por causa da manutenção dos automóveis; a manutenção
por causa das máquinas; as máquinas por causa da produção das peças; as peças
por causa do processo de molde; o processo de molde por causa do custo do
material; o material por causa dos mecanismos de separação dos minérios; os
minérios por causa dos sistemas de busca, extração e transporte; e estamos num
ciclo de novo.
É por causa dessa
complexidade de influências que é bastante difícil controlar a inflação num
país. Dessa forma, medidas emergenciais são tomadas quase que mensalmente com o
intuito de controlar a saída do dinheiro do bolso do trabalhador. Mas medidas a
longo prazo também devem ser pensadas e, portanto, devemos saber escolher
gestores públicos preparados e capacitados, pensando no nosso futuro, e não no
momento, pois erros de impacto no longo prazo são, geralmente, muito mais
desestabilizadores para todos.
Racionamento e as Séries
Históricas
No final do ano passado, foi
impossível não falar sobre racionamento de energia elétrica. Mas muitos
consideraram que o assunto era apenas uma questão eleitoreira e ignoraram o
abismo que estava por vir. Chamo de abismo não apenas por sermos quase totalmente
dependentes de energia elétrica, mas porque os efeitos de longo prazo estavam
chegando, derivados de um planejamento desleixado e um sistema público já
saturado de funcionários incompetentes e corruptos, o que me faz agradecer
todos os dias por ainda existirem alguns trabalhadores sérios nos governos, que
reacendem a minha esperança de um futuro mais próspero.
Enfim, o racionamento
chegou, mas não chegou de surpresa. Não foi a falta de chuva que nos trouxe
diretamente a complicação de um racionamento. Claro que a chuva importa. E
importa muito. Mas o clima, com todas as mudanças climáticas e toda a desgraça
que estamos vivendo, não nos engana tanto. A seca estava prevista há muito
tempo. Antes da construção de uma usina hidrelétrica, são feitas inúmeras pesquisas,
dentre elas estudam-se o clima e o regime de chuvas da região. A ANA, Agência
Nacional de Águas, disponibiliza dados chamados séries históricas, que são um
registro de quanto chove em determinado espaço, contabilizados ano por ano, mês
por mês e dia por dia, e essas séries não são aleatórias. A cada ciclo de
aproximadamente quarenta anos, o nosso país passa por um regime de seca, que
dura de 3 a 4 anos, e sabíamos que estávamos entrando nesse período, que se
iniciou por volta de 2013. Notem, portanto, que entramos no período de seca
junto com a redução da tarifa de energia, o que não é bom nem para as empresas
do setor, nem para as indústrias e nem para o povo, e vou explicar o porquê.
Racionamento em 2001
No ano de 2001, com 30% em
média dos reservatórios de água do país, o então presidente, Fernando Henrique
Cardoso, anunciou um período de racionamento de energia. Não só isso, já haviam
muitas campanhas sobre o uso consciente de água e energia elétrica realizadas por
alguns governos estaduais e pelo governo federal. Frente à necessidade de um
racionamento e a obrigatoriedade de não permitir que o nosso país perdesse a
tão duramente conquistada estabilidade econômica, o governo decidiu estimular a
construção de usinas termelétricas. Porém, àquela época, mais de 90% da nossa energia
era proveniente de grandes hidrelétricas, caracterizando um grande risco até ao
abastecimento de água caso os reservatórios baixassem muito.
A partir de 1997, iniciou-se
o processo de construção de usinas de menor porte, com o intuito de distribuir
um pouco mais a geração pela área física do país, reduzindo o impacto climático
das usinas geradoras, um modelo que é seguido em grande parte dos países onde
há alto consumo de energia. A medida, obviamente, surgiu para consertar uma
falha do governo, que foi a retirada do planejamento energético do setor
público, acreditando que, por demanda natural, surgiriam empresários a fim de
construir novas linhas e novas usinas, se responsabilizando pelo investimento. Para
tal foram criados dois órgãos públicos, o CCPE, Comitê Coordenador da Expansão
do Sistema Elétrico, e o CNPE, Conselho Nacional de Política Energética. O
primeiro seria responsável para regular e coordenar o planejamento, porém não
mais investir, e o segundo deveria assessorar o presidente na formulação de
diretrizes relacionadas ao setor. Com a dificuldade de atrair investidores para
o setor, passamos por problemas no planejamento que nos renderam uma crise
energética, e tivemos que racionar.
Então racionamos, evitamos
maiores problemas e corrigimos erros do passado. Infelizmente, 4 anos de luta
contra a crise não resultaram no ideal. Até as contas de energia dos
brasileiros sofreram alterações. O alto consumo seria punido com uma multa de 50%
do valor do excedente ou até mais, a depender da característica daquela carga.
Passado esse problema e iniciado o processo de expansão da geração e da
transmissão, não deveríamos mais passar por problemas de abastecimento de
energia. Mas, infelizmente, outros fatores nos trazem de volta o risco de
racionamento.
Racionamento em 2015
Não adiantou o governo negar
a iminência do racionamento. Estamos vivendo o racionamento desde o primeiro
corte de carga determinado pelo ONS, ainda no começo deste ano. Há vários
motivos que podem levar a um racionamento, como falta de linhas de transmissão
para transportar a energia demandada ou falta de geração da energia necessária.
O Brasil passa pelos dois problemas. Estávamos com as nossas hidrelétricas e
nossas térmicas a todo vapor. Agora já estamos comprando energia da Argentina.
Nossa geração não é suficiente para o atual consumo, mesmo com a retração do
setor industrial nos últimos meses.
Não bastasse todo o problema
de geração, a falta de planejamento do setor elétrico nos últimos anos fez com
que todas as linhas que interligam a região Norte às regiões Sudeste e Centro-Oeste
fossem utilizadas praticamente no limite o tempo todo nos últimos dois anos. A
utilização de componentes do setor elétrico próximas ao limite atrapalham a
realização de grande parte das já programadas manutenções preventivas, deixando
o sistema mais vulnerável a falhas, como está acontecendo conosco. Se o Brasil
tivesse crescido de como idealizado, a necessidade de racionamento teria
chegado antes.
Essa situação poderia, de
fato, ter sido evitada, já que temos como prever os tempos de seca. O governo,
como vimos, sabia, há muito mais de dez anos, do período de seca que estava por
vir. Nada foi feito, linhas de transmissão foram atrasadas e obras de pequenas
centrais hidrelétricas também. O plano de investimento em gerações de pequeno e
médio porte, iniciado antes do racionamento de 2001, foi quase que
completamente desprezado. Nenhum aumento foi dado nas tarifas de energia, pois é
considerado medida impopular. Na verdade, seguimos o padrão populista e
esquecemos do futuro do povo, que hoje tem que pagar muito mais caro por uma postura
errada do passado.
Mesmo tardio, o racionamento
está impactando o crescimento econômico. Como a energia hoje é o grande bem de
consumo de uma grande empresa, principalmente se esta for do setor industrial,
seus planos não prevêem grandes investimentos no país. Este foi um dos fatores
que nos fez passar por uma recessão no final do ano passado, que pode até se
repetir este ano, visto que não há outra medida a ser tomada no setor. Se,
portanto, o governo não conseguir subsidiar empresas e grandes indústrias de
outra forma, viveremos tempos complicados, principalmente para aqueles que
trabalham nos setores produtivos do país.
Crise Financeira do Setor
Elétrico X Inflação e Crescimento Econômico
Estamos em crise no setor
elétrico desde 2013, quando houve a redução da tarifa para todas as modalidades
tarifárias do país. Como estávamos entrando num período de seca, viveríamos
dias de extremo calor e pouca água, tanto nas capitais como nos mananciais de
todo o Brasil. Portanto, passamos por problemas como o alto consumo de energia
elétrica por conta do calor, pouca água nos reservatórios devido à seca e
acionamento de outras formas de geração, como termelétricas. Aparentemente,
está tudo bem, apenas estamos consumindo uma energia de outra fonte geradora.
Mas, infelizmente, nem tudo é tão simples quanto parece.
O custo de geração das
termelétricas é absurdamente alto, principalmente o das que usam diesel como
combustível. Assim, o preço da energia no mercado livre, como mostra a evolução
do PLD, retirada do site da ANEEL, subiu de algo em torno de R$100/MWh no
início/meio de 2013 para pouco mais de R$800/MWh. Um preço quase 8 vezes maior
contido pelo teto estabelecido, e se manteve num patamar alto por um bom tempo,
sendo jogado para baixo no início de 2014 e subindo logo em seguida. Nota-se
também, do mesmo gráfico, que o teto do PLD já vinha subindo, dado às formas de
geração que estávamos sendo obrigados a utilizar, provando como o governo e o
planejamento do setor tinham plena consciência do que se passava no país. Vale
salientar também que a análise deste texto feita sobre o PLD já se inicia em
tempos de crise. Se compararmos a alavancada com a média anterior à crise, até
a metade de 2012, o aumento ultrapassa bastante os 1000% (mil por cento, ou
seja, dez vezes).
| Fonte: http://www.aneel.gov.br |
Esse aumento no mercado de
energia leva as distribuidoras de energia a pagarem o preço estabelecido. Mas
não nos afeta instantaneamente. Nós, consumidores finais, pagamos o preço definido
na revisão tarifária periódica realizada pela ANEEL, ou seja, estávamos pagando
16% a menos do que pagávamos antes, mas por uma energia que custava mais de 800%
a mais do que custava antes. As distribuidoras quebraram financeiramente. Dado
isso, o governo teve de bancá-las para que não houvesse reajuste nas tarifas e,
mesmo meio a inúmeros subsídios, ainda houve aumento de 20% até 35% nas contas
dos consumidores finais, a depender do estado em que moravam. Diferença que é
definida pela condição financeira da distribuidora local. Sem contar o setor
industrial, que teve de pagar até 48% a mais.
Mas esse reajuste ainda não
foi suficiente, e atualmente um empréstimo está em processo de discussão. O
aumento pago pelas indústrias, que representam o maior percentual das contas,
refletiu num aumento de apenas 6,56% relativo a 2012, quando houve então a
redução, o que não cobre os custos de mais de 800% já relatados aqui.
O aumento do PLD traz
inúmeras consequências negativas ao país. Empresas de grande porte, como as
eletrointensivas, que correspondem à maior parcela da carga do sistema,
costumam comprar energia por contrato no mercado, não sendo atrelados a um
preço fixo, podendo portanto alterar seus contratos e mudar seu fornecedor de acordo
com a demanda e outros fatores, mas sempre de acordo com a regulamentação da
ANEEL. Com o PLD alto, essas empresas passam a ter custo de produção muito elevado,
impactando fortemente na economia do país e no bolso dos brasileiros. Porém,
devido ao altíssimo consumo, seus contratos costumam ser baratos. Mas como
estamos em tempos de crise, o governo não pôde mais autorizar os contratos com
preço baixo para muitas delas.
As eletrointensivas do
Nordeste, como visto recentemente, deverão rediscutir seus contratos de R$110
por MWh. Isso impactará fortemente nos custos de produção das empresas Gerdau,
Vale, Braskem e Dow. Caso entrem para a compra no mercado livre, sem receber
nenhum benefício no governo, pagarão o PLD atual, que está nos R$388/MWh,
representando um aumento de aproximadamente 250% nos custos com energia
elétrica. Com os ramos da mineração, da química e da siderurgia afetados,
muitos outros setores serão negativamente impactados, dados os custos que
também subirão. Portanto, hoje, reunimos alta de custos tanto na energia como
nos bens básicos para as indústrias, o que será repassado para o consumidor,
naturalmente. Podemos contar com uma elevação do índice da inflação para os
próximos anos.
Para quem não sabe, as
eletrointensivas afetadas fornecem produtos para os setores de: construção, peças,
agricultura, eletrônicos, saúde, infraestrutura, nutrição, petróleo,
embalagens, energia renovável, transporte, água e outros. Logo, a reação em
cadeia é inevitável. Haverá um aumento decorrente do fornecimento para as áreas
citadas e ainda um custo adicional do percentual da tarifa de energia dos
setores que não são eletrointensivos. Por exemplo, a Dow fornece produtos
químicos para agricultores, que pagarão mais caro e repassarão seus custos para
a safra. A safra sairá mais cara por causa dos produtos fornecidos e pelo
aumento de tarifa de energia que acontecerá nos próximos meses. Será portanto
um aumento duplo sobre um mesmo produto, e segue a reincidência até o
consumidor final. Provavelmente, a comida na mesa do povo brasileiro subirá
bastante em 2015.
Crise Elétrica X Crise
Hídrica
Além de tudo que já foi
comentado, o desleixo no planejamento energético, no caso, principalmente a
redução das tarifas no início de 2013, ainda fizeram com que o país passasse
por uma seca maior do que deveria. Houve um crescimento no consumo nos últimos
dois anos e as hidrelétricas funcionaram praticamente a plena carga durante
todo o tempo, secando ainda mais os reservatórios. Essa seca atingiu grandes
populações. Apesar da veiculação sobre a crise hídrica de São Paulo, hoje, o
Ceará está em estado de alerta por causa da seca e o governo de Minas Gerais
está tendo que pensar bastante as medidas futuras. No Nordeste, durante o final
do ano passado, os reservatórios estiveram muito mais baixos do que os do
Sudeste. Enquanto o povo nordestino sofria com a seca, a corrida eleitoral
virou os olhos de todos para o Sudeste, deixando muitos sertanejos do interior
de lado.
Outra medida essencial para
a boa manutenção das chuvas num país é o controle do desmatamento. Como mostra
o recente estudo de Antonio Nobre, pesquisador do INPE, o desmatamento na Amazônia
influencia diretamente as chuvas no corredor Norte-Sudeste. É transportada
pelos ares, em forma de nuvens, uma quantidade de água comparável à vazão do
rio amazonas, água que cai em forma de chuvas no Sudeste e no Centro-Oeste do
Brasil. Estas estruturas são chamadas de rios voadores e se formam a partir da
transpiração das árvores. Para a tristeza dos brasileiros, Nobre diz que não
adianta mais reduzirmos o desmatamento, temos que replantar.
Planos Futuros, Governo e o
Papel do Cidadão Brasileiro
Nosso futuro é incerto.
Infelizmente temos que torcer por melhoras e, quando a palavra esperança passa
a rondar as reuniões de planejamento, é porque não há mais o que fazer.
A população tem criticado a
presidenta pelas medidas tomadas pós-eleições. Mas não vou entrar no mérito de
promessas de campanha, pois esse não é o foco do presente texto. O caso a ser
analisado é bem simples. As medidas tomadas, os vetos e tudo o mais são
exatamente o que qualquer presidente seria obrigado a fazer, desde o ajuste na
tabela do IR, até o veto nos contratos das eletrointensivas e o aumento dos
juros. O que deve ser discutido e, claro, criticado é a absurda falta de
planejamento que o país vive há quase 12 anos. O plano econômico se manteve na
mudança de governos em 2003, porém a qualidade da equipe econômica era outra e
medidas emergenciais não foram sempre tomadas de forma correta. Quando,
portanto, a então ministra de minas e energia, Dilma Rousseff, no governo do
ex-presidente Lula, se deparou com o futuro que estava por vir, não soube o que
fazer. O país passaria por problemas de abastecimento e deveria haver alguém
competente para pensar o futuro, alguém que estimulasse a geração distribuída,
que fizesse com que pessoas de renda média e alta pagassem mais caro pela
energia elétrica, que fizesse campanhas de consumo consciente. Como este ser
humano não existia dentro do MME, entramos em declínio no setor elétrico.
Analisamos, até então,
apenas o impacto do setor elétrico. Outras análises profundas de diversos
setores podem ser feitas. Contribuo aqui apenas com o pouco que entendo. Deixo
claro também que a estrutura do setor é bem mais complexa e que este é um texto
para que todos possam entender o quanto uma pequena parcela influencia no todo.
Evitei portanto o excesso de termos técnicos e espero ter ajudado na
compreensão do problema que estamos vivendo. Estou fazendo meu papel de
cidadão.
Com relação a isso,
espero que todos nós utilizemos energia de maneira mais consciente,
economizemos água e aprendamos a não sujar o nosso país. Essa é a diferença que
podemos fazer. Devemos também estudar o máximo para compreender o funcionamento
do nosso sistema político e econômico, para não cairmos mais uma vez na mão de
políticos incompetentes. Desejo muita sorte a todos nós.Referências e Links Recomendados
Site da Dow
Site da Braskem
Valor Econômico: Governo Discute com Eletrointensivas Alternativas a Contrato da Chesf
Estadão: Alta no Preço da Energia Faz Alcoa Cortar Produção
ANEEL: Sobre o PLD
Globo; Preço da Energia Para o Consumidor Vai Cair em 2013
Valor Econômico: Aneel Aprova Aumento Médio de 35,05% nas Tarifas de Energia da Copel
Revisão do ONS Sobre o Setor Elétrico
INPE: Futuro Climático da Amazônia - Antônio Nobre (para download)
BNDES: Relatórios Sobre as Privatizações
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